Auto-anticorpos antifilagrina/anti-CCP no diagnóstico da artrite reumatóide

|IMUNOLOGIA|


GENERALIDADES


A artrite reumatóide (AR) é uma doença auto-imune, de etiologia desconhecida, que se caracteriza por uma poliartrite crônica e erosiva.

O diagnóstico de artrite reumatóide é primariamente clínico. A inespecificidade dos sinais e sintomas clínicos e a ausência de achados radiológicos sugestivos de AR nas fases iniciais da doença, dificulta o diagnóstico clínico precoce.

O fator reumatóide IgM (FR), considerado um marcador sorológico tradicional para a AR, apresenta baixa especificidade (cerca de 60%), podendo ser identificado em indivíduos saudáveis, em outras doenças reumáticas auto-imunes e em doenças infecciosas e neoplásicas. O FR é detectado em aproximadamente 80% dos pacientes com artrite reumatóide estabelecida; nas fases iniciais da doença a sua sensibilidade é de cerca de 50%.

A disponibilidade de novos agentes terapêuticos e o consenso atual de que o tratamento precoce é fundamental para minimizar a morbidade associada à doença, levaram à busca de outros marcadores sorológicos mais sensíveis e específicos para o diagnóstico da artrite reumatóide. Dentre os marcadores estudados, os anticorpos antifilagrina (fator antiperinuclear e antiqueratina) e anticitrulina (antipeptídeos citrulinados cíclicos) têm se mostrado útil para a detecção de artrite reumatóide, especialmente na abordagem das formas iniciais da doença.


AUTO-ANTICORPOS ANTIFILAGRINA/CITRULINA

Vários anticorpos têm sido reconhecidos em soros de pacientes com artrite reumatóide. Entre estes, o fator antiperinuclear e os anticorpos antiqueratina, detectados por imunofluorescência indireta, em células de mucosa oral humana e mucosa do esôfago de rato respectivamente, demonstraram ser mais específicos do que o FR para a artrite reumatóide. O antígeno reconhecido por estes anticorpos corresponde à proteína filagrina e sua precursora, a profilagrina e, por esta razão, denominados, recentemente, de anticorpos antifilagrina.

Estudos posteriores evidenciaram que esses anticorpos são dirigidos contra peptídios citrulinados, provenientes de modificações do aminoácido Arginina, processo enzimático que acorre abundantemente na profilagrina/filagrina.

Embora os anticorpos anti-CCP sejam considerados preditores independentes de AR, vários estudos têm evidenciado que a presença concomitante de anti-CCP e FR aumenta a especificidade de detecção, sendo extremamente útil na diferenciação entre artrite reumatóide e outras artrites indiferenciadas. Da mesma forma, a associação entre os dois testes (com ao menos um dos anticorpos presentes) aumenta a probabilidade de identificar pacientes com artrite reumatóide.

Ainda que existam dados contraditórios entre diferentes estudos, alguns autores têm sugerido que a presença de anticorpos anti-CCP possam ter implicações prognósticas, distinguindo grupos de pacientes com pior resposta clínica e predizendo doença erosiva.


ASPECTOS LABORATORIAIS


Os testes imunoenzimáticos para a determinação de anticorpos anti-CCP são reprodutíveis, de fácil realização e amplamente disponíveis.

Os testes de imunofluorescência indireta para determinação do fator antiperinuclear e antiqueratina, embora possuam sensibilidade e especificidade semelhantes ao do anti-CCP, apresentam dificuldades técnicas relacionadas com a padronização de substrato e com a interpretação subjetiva dos resultados, limitando sua utilização na rotina de laboratórios clínicos.

Ainda que se refiram a um mesmo grupo de auto-anticorpos, os testes para determinação dos anticorpos fator antiperinuclear, antiqueratina e anti-CCP podem apresentar desempenho diagnóstico distintos. Esta diferença é explicada pela diversificação de anticorpos contra proteínas citrulinadas presentes no soro de cada paciente e na variação de antígenos citrulinados contidos no substrato de cada teste. Neste contexto, um paciente com AR pode apresentar resultado reagente em apenas um, dois, ou nos três testes.

TÉCNICAS UTILIZADAS E VALOR DE REFERÊNCIA
• A pesquisa de anticorpos antiqueratina e fator antiperinuclear é realizada por imunofluorescência indireta.
Os resultados de anticorpos antiqueratina são expressos como reagente ou não reagente.
Os resultados de fator antiperinuclear são expressos em titulo.

Valor de referência:

<1/10: não reagente
1/10 a 1/20: fracamente reagente
1/40 a 1/80: moderadamente reagente
>1/80: fortemente reagente

• A pesquisa de anticorpos anti-CCP é realizada por enzimaimunoensaio e os resultados são expressos em unidades (U) :

Valor de referência:

<20 : não reagente
20 a 39 : fracamente reagente
40 a 59 : moderadamente reagente
>59 : fortemente reagente



LEITURAS SUGERIDAS

1) BIZZARO, N. et al. Diagnostic accuracy of the anti-citrulline antibody assay for rheumatoid arthritis. Clin Chem 43: 1089-1093,2001.

2) DUBUCQUOI, E. et al. Evaluation of anti-citrullinated filaggrin antibodies as hallmarks for the diagnosis of rheumatic diseases. Ann Rheum Dis 63:415-419, 2004.

3) GAALEN, F. et al. Autoantibodies to cyclic citrullinated peptides predict progression to rheumatoid arthritis in patients with undifferentiated arthritis. Arthritis & Rheumatism 50(3):709 -715, 2004.

4) NIELEN, M. et al. Specific autoantibodies precede the symptoms of rheumatoid arthritis. A study of serial measurements in blood donors. Arthritis & Rheumatism 50(2):380 -386, 2004.
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Autores: Beatriz Von Poser
..............Rejane Maria Oravec
Contato: bposer@weinmann.com.br

Data: Novembro-Dezembro/2004
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