Hemocomponentes leucorreduzidos

|MEDICINA TRANSFUSIONAL|


GENERALIDADES


Os leucócitos presentes em concentrados de glóbulos e plaquetas podem resultar na ocorrência de algumas reações adversas nos receptores de transfusões de hemocomponentes.

A leucorredução de hemocomponentes é indicada para reduzir a freqüência de três complicações transfusionais: reação transfusional febril não hemolítica (RTFNH), aloimunização contra antígenos leucocitários humanos (HLA) e prevenção da transmissão de infecções transmitidas por leucócitos.

A filtração é o melhor método para remover leucócitos. Lavagem, sedimentação, congelamento e centrifugação são utilizados para produzir hemocomponentes pobres em leucócitos, mas que não apresentam a mesma eficácia do filtro de leucorredução. A filtração de sangue pode ser realizada no período que antecede o armazenamento do hemocomponente (pré-estoque) ou após o armazenamento (pós-estoque), podendo esta última ser realizada no serviço de hemoterapia ou à beira do leito.

Segundo a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC153) da ANVISA, a leucorredução de um concentrado de hemácias ou de plaquetas deve remover 99,9% dos leucócitos do componente original, isto é, devem conter uma quantidade inferior a 5 x106 leucócitos por unidade.

EFEITOS ADVERSOS RELACIONADOS AOS LEUCÓCITOS

Reação Transfusional Febril Não Hemolítica
A RTFNH pode ocorrer em até 1% das transfusões de concentrados de glóbulos e em 20 a 30 % de concentrados de plaquetas. É uma reação comum em pacientes politransfundidos, geralmente ocorrendo ao final da infusão. A destruição imune dos leucócitos dos doadores, as citocinas pró-inflamatórias produzidas durante o período de estocagem dos hemocomponentes e a destruição das plaquetas transfundidas são os fatores que estão envolvidos com o surgimento da RTFNH. Todos estão relacionados à liberação do fator de necrose tumoral (TNF), que é um mediador de hipertermia. Os pacientes podem apresentar ainda calafrios, contrações, desconforto generalizado, cefaléia e náuseas.

Apesar do uso de plaquetas leucorreduzidas, a RTFNH continua a ocorrer em uma minoria de pacientes. Esse mecanismo pode ser atribuído a anticorpos anti-HLA ou anti-plaquetários específicos.

Aloimunização HLA
A leucorredução de hemocomponentes é utilizada para prevenir a aloimunização contra antígenos HLA do doador. A presença de anticorpos contra antígenos do sistema HLA vem sendo apontada como a principal causa de refratariedade plaquetária que envolve mecanismos imunológicos. Outras conseqüências clínicas da aloimunização HLA incluem a RTFNH e a rejeição de enxertos em transplantes.

Os benefícios da leucorredução em prevenir a aloimunização contra antígenos HLA em pacientes onco-hematológicos têm sido demonstrados em diversos estudos, apesar de só alguns apresentarem significância estatística na prevenção da refratariedade à transfusão de plaquetas.

Uma explicação para esse achado é a presença de outros mecanismos, que incluem a hipertermia, uso de anfotericina B, hiperesplenismo, coagulopatia de consumo e púrpura trombocitopênica imunológica. A leucorredução não tem efeito na redução da formação de anticorpos plaquetários específicos.

Citomegalovírus e outros agentes transmitidos por leucócitos
A infecção por citomegalovírus (CMV) pode se manifestar por quadros graves em pacientes imunocomprometidos. A transfusão pode ser uma via de transmissão, uma vez que o CMV pode ser transportado pelos leucócitos do doador para o receptor. Até recentemente, sangue de doadores com sorologia negativa para CMV era selecionado para receptores imunocomprometidos com sorologia negativa. Com a alta prevalência dessa infecção na população de doadores, a leucorredução é uma estratégia alternativa para prevenir a transmissão de CMV por transfusão para pacientes específicos. Outros potenciais benefícios da leucorredução incluem a prevenção da variante da doença de Creutzfeldt Jacob, a redução da incidência de infecções que utilizam leucócitos como vetores tais como HTLV (Vírus T Linfotrópico Humano) e de efeitos imunomodulatórios.

OUTROS BENEFÍCIOS DA LEUCORREDUÇÃO

A transfusão de sangue alogênico está relacionada à imunomodulação, causa de alteração no sistema imune do receptor. Os efeitos da imunomodulação têm sido objeto de estudo em diversas situações clínicas, podendo contribuir na recorrência de câncer, no aumento de infecções no pós-operatório, e no aumento da taxa de mortalidade em pacientes que recebem transfusões, entre outros.

INDICAÇÕES DE LEUCORREDUÇÃO

- Paciente com necessidade de suporte transfusional por períodos longos para prevenção da RTFNH;

- Ocorrência de RTFNH em transfusão prévia;

- Redução da imunização HLA em receptores de transplantes e em pacientes que necessitam transfusões freqüentes de plaquetas;

- Prevenção de transmissão de CMV:

- Em recém-nascidos com peso inferior a 1200g e mães com sorologia negativa ou desconhecida para CMV

- Em transfusões intra-uterinas

- Em receptores de transplantes

- Em imunodeficiências adquiridas ou congênitas

- Em gestantes

REAÇÕES ADVERSAS À LEUCORREDUÇÃO

Hipotensão arterial e alergia são reações adversas raras relacionadas ao uso de filtro de remoção de leucócitos. Reações hipotensivas mais graves foram atribuídas à filtração à beira do leito em pacientes que fazem uso de inibidores de enzima conversora de angiotensina.

LEUCORREDUÇÃO UNIVERSAL

A leucorredução universal é a filtração de todos os hemocomponentes produzidos em um serviço de hemoterapia. Entretanto a baixa incidência de reações adversas não justificam a implementação dessa prática de elevado custo em nosso meio.

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LEITURAS SUGERIDAS

1) Blood banking and transfusion medicine-basic principles & practice. Christopher D. Hillyer et al. 2nd ed. Churchil Livingstone, 2007.

2) Hemoterapia-fundamentos e prática. José Orlando Bordini e col., 2007.

3) Technical Manual of American Assoc. of Blood Banks (AABB Technical Manual) , 14th ed., Mark Brecher, 2002.

4) Resolução da Diretoria Colegiada-RDC n° 153 de 14 de Julho de 2004 - Regulamento técnico para procedimentos de hemoterapia.
Disponível em: http://e-legis.anvisa.gov.br/leisref/public/showAct.php?id=11662
Acessado em Junho/2008
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Autor: Beatriz Oliveira
Contato: boliveira@weinmann.com.br

Data:
Janeiro-Fevereiro/2008
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