Imunofenotipagem nas síndromes mielodisplásicas

|HEMATOLOGIA|


GENERALIDADES


As síndromes mielodisplásicas (SMD) são um grupo heterogêneo de doenças de origem clonal caracterizadas, em sua maioria, por citopenias periféricas, hiperplasia medular e risco de evolução para leucemia aguda. A presença de citopenias periféricas associadas a alterações morfológicas medulares podem ser observadas em outras condições clínicas e, por si só, não constituem evidência de síndrome mielodisplásica. Portanto, o diagnóstico de SMD, depende da exclusão de outras condições que cursam com alterações mielodisplásicas. A deficiência de vitamina B12 e ácido fólico, a exposição recente a metais pesados, drogas citotóxica e fatores de crescimento são considerados fatores de exclusão absolutos; a presença de doenças inflamatórias crônicas, doenças auto-imunes, insuficiência hepática ou renal, etilismo e infecções virais, entre outras, devem ser consideradas no diagnóstico diferencial.

O diagnóstico das síndromes mielodisplásicas é baseado nos achados de citopenia no hemograma, na identificação de alterações morfológicas em células hematopoiéticas (displasias) e na presença de alterações citogenéticas, identificadas na cariotipagem. As alterações morfológicas, que envolvem uma ou mais linhagens celulares, são identificadas no hemograma, medulograma e na biópsia de medula óssea.

Em muitos casos, as alterações morfológicas são discretas, a medula óssea é hipocelular e a cariotipagem não identifica alterações cariotípicas ou não evidencia mitoses. Nestes casos, o diagnóstico diferencial com condições não clonais, que cursam com quadro de citopenia periférica e alterações morfológicas medulares, é difícil. Neste contexto, a imunofenotipagem por citometria fluxo é uma ferramenta útil no diagnóstico e acompanhamento das síndromes mielodisplásicas, a semelhança do que ocorre nas doenças linfoproliferativas (abordado no Tópico de Patologia Clínica - H18 Imunofenotipagem de Doenças Linfoproliferativas) e nas leucemias agudas (abordado no Tópico de Patologia Clínica - H19 Imunofenotipagem das Leucemias Agudas).


IMUNOFENOTIPAGEM POR CITOMETRIA DE FLUXO


Diversas alterações na expressão de antígenos celulares têm sido descritas na SMD. A análise da expressão desses antígenos celulares, através de imunofenotipagem por citometria de fluxo, possibilita identificar expressões anormais relacionadas à linhagem e maturação celular, evidenciar o aumento de células imaturas com imunofenótipos aberrantes e quantificar marcadores de apoptose em células de medula óssea. Entre as alterações imunofenotípicas associadas à síndrome mielodisplásica cita-se:

- Presença de hipogranularidade na população granulocítica, evidenciada pela diminuição da intensidade do parâmetro que mede complexidade celular na citometria de fluxo (parâmetro SSC), e diminuição da mielopoese;

- Expressão assincrônica de CD16 nos granulócitos;

- Co-expressão aberrante de CD14 nos granulócitos;

- Diminuição da expressão de CD10 nos neutrófilos;

- Aumento da variabilidade de CD38, CD13 e CD33 na série mielóide;

- Co-expressão de CD56 na série mielóide;

- Aumento de células com expressão de CD34 (blastos);

- Aumento de células com expressão de CD117 (blastos mielóides);

- Presença de antígenos linfóides (CD5 e CD7) nas linhagens monocítica e mielóide;

- Aumento da expressão de HLA-DR na série mielóide.

Os aspectos metodológicos da imunofenotipagem por citometria de fluxo, utilizando anticorpos monoclonais para a identificação de diferentes antígenos celulares, foram abordados no Tópico de Patologia Clínica - H18 (Imunofenotipagem de Doenças Linfoproliferativas).

A figura a seguir ilustra os histogramas de aquisição de imunofenotipagem por citometria de fluxo comparando o perfil de maturação celular (1a) e a expressão de células CD117 (2a) em medula óssea normal e em medula óssea de paciente com SMD (1b; 2b).




Embora seja útil no diagnóstico e acompanhamento das síndromes mielodisplásicas, as classificações baseadas em parâmetros clínicos e morfológicos, propostas pelo grupo colaborativo Americano-Franco-Britânico (FAB) e, posteriormente, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), não incluem a imunofenotipagem como critério diagnóstico para a caracterização dos subtipos de SMD. Da mesma forma, a correlação da imunofenotipagem com critérios prognósticos bem estabelecidos, como os do IPSS (International Prognostics Scoring Systems), que estratifica pacientes em grupos de risco para progressão da doença, ainda não está comprovada.

É importante ressaltar que a suspeita clínica de síndrome mielodisplásica deve ser informada para que o painel de anticorpos monoclonais possa ser direcionado para a pesquisa das anormalidades descritas anteriormente. Informações clínicas (história clínica, exame físico e evolução) e laboratoriais complementares (hemograma e medulograma) do paciente são dados importantes para correlação e uma melhor interpretação dos achados imunofenotípicos.


RESULTADOS


O laudo informa a percentagem de células que expressam determinados CD e relata a presença de parada na maturação celular e de imunofenótipos aberrantes.

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LEITURAS SUGERIDAS

1) Lorand-Metze, I. Contribuição da citometria de fluxo para o diagnóstico e prognóstico das síndromes mielodisplásicas. Rev. bras. hematol. hemoter. 28(3): 178 - 181, 2006. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbhh/v28n3/v28n3a05.pdf. Acessado em Junho-2007.

2) Stetler-Stevenson, M., Arthur D.C., Jabbour, N., Xie, X.Y., Molldrem, J., Barrett, J., et al. Diagnostic utility of flow cytometric immunophenotyping in myelodysplastic syndrome. Blood 98: 979 - 987, 2001.

3) Wells, D. A., Benesch, M., Loken, M.,Vallejo,C., Myerson,D., Leisernring,W.M et al. Myeloid and monocytic dyspoiesis as determined by flow cytometric scoring in myelodysplastic syndrome correlates with the IPSS and with outcome after hematopoietic stem cell transplantation. Blood 102: 394 - 403, 2003.

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Autor:
Flavo Beno Fernandes
Contato: ffernandes@weinmann.com.br

Data: Maio-Junho/2007.
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