Determinação dos níveis de vitamina D

| BIOQUÍMICA|

GENERALIDADES

A vitamina D é um hormônio esteróide, conhecido pelo seu importante papel na regulação dos níveis séricos de cálcio e fósforo e na mineralização óssea. A deficiência severa de vitamina D está associada a quadros de raquitismo em crianças e osteomalácia em adultos; deficiências leves podem levar à redução nos níveis de cálcio sérico, com elevação dos níveis do hormônio da paratireóide (PTH) resultando em hiperparatireoidismo secundário, perda óssea e osteoporose.

Pesquisas recentes evidenciam que, além da importância na homeostase do cálcio e na regulação do metabolismo ósseo, a vitamina D desempenha um relevante papel em diversas doenças metabólicas, musculares, cardíacas e neurológicas. Essa diversidade de efeitos biológicos se explica pela expressão de receptores celulares específicos de vitamina D em um grande número de tecidos. Diversos estudos demonstram que o polimorfismo desses receptores justifica a propensão para diferentes quadros associados a essa vitamina, como diabetes mellitus tipo II, hipertensão, dislipidemia e diferentes tipos de neoplasias malignas como as de mama, próstata e trato digestivo.

Apesar de existirem várias formas de vitamina D, as mais conhecidas são o colecalciferol (vitamina D3), produzido na pele a partir da exposição às radiações ultravioletas, e o ergocalciferol (vitamina D2) presente em suplementos de vitamina D de origem vegetal. A vitamina D3, biologicamente inativa, é a fonte mais importante de vitamina D.

A 25-hidroxivitamina D [25(OH)D], produto do metabolismo hepático da vitamina D3, é a principal forma circulante, com meia-vida em torno de duas a três semanas. O metabólito 1,25-hidroxivitamina D [1,25(OH)D], produzido a partir do metabolismo renal da 25(OH)D, é a forma biologicamente ativa, entretanto sua meia-vida curta (6-8 horas) e a sua baixa concentração circulante (cerca de mil vezes inferiores ao seu precursor) limita a sua utilidade diagnóstica. A determinação da 1,25(OH)D se restringe a condições clínicas especiais como o diagnóstico de raquitismo resistente à vitamina D e o diagnóstico diferencial de hipercalcemias não dependentes de PTH. Nesse contexto, o nível sérico da 25(OH)D é considerado o melhor indicador para definir deficiência de vitamina D. Além de auxiliar na definição da deficiência de vitamina D, a sua determinação é útil na avaliação da hipercalcemia, quando pode estabelecer ou excluir a possibilidade de intoxicação por vitamina D.

METODOLOGIA

Entre os métodos disponíveis para a determinação de 25(OH)D sérica estão os imunoensaios competitivos baseados em anticorpos específicos e os ensaios que utilizam cromatografia líquida de alto desempenho (HPLC) com quantificação por leitura UV ou espectrometria de massa. Os ensaios competitivos, passíveis de automação, medem a 25(OH)D derivada da vitamina D3 enquanto que o HPLC, dosa a vitamina D2 e D3.

VALORES DE REFERÊNCIA E PREVALÊNCIA 

Os níveis de 25(OH)D considerados desejáveis à manutenção das funções fisiológicas normais ainda são motivo de controvérsias na literatura. A ausência de uma padronização entre as diferentes metodologias existentes para determinação de 25(OH)D e a variação dos seus níveis com relação a gênero, latitude geográfica, estação do ano, obesidade e população estudada contribuem para esta controvérsia.

A maioria dos estudos fundamenta-se em valores de PTH para estabelecer os níveis considerados satisfatórios de 25(OH)D. Neste contexto, valores abaixo dos quais ocorre uma elevação nos níveis de PTH, caracterizando uma alteração na homeostase do cálcio e hiperparatireoidismo secundário, são indicativos de deficiência de vitamina D.

Ainda que não exista um consenso, diversos autores consideram como desejáveis níveis de 25(OH)D entre 30 e 60ng/mL (75 e 150nmol/mL).

Existem poucos estudos sobre a prevalência de deficiência de vitamina D no Rio Grande do Sul. Um estudo realizados no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, mostrou níveis séricos de 25(OH)D inferiores a 20ng/mL em 57% (n=73) de médicos residentes. Neste estudo, a prevalência de hiperparatireoidismo secundário foi de cerca de 40%.

Com o objetivo de comparar os valores de referência de 25(OH)D obtidos com a metodologia eletroquimioluminescente (ECLIA), com os citados na literatura, desenvolvemos um estudo correlacionando as concentrações séricas de 25(OH)D com os níveis de PTH e cálcio total em um grupo de nossos colaboradores (n=52). Do total, 47% dos colaboradores tinham níveis séricos de 25(OH)D inferiores a 20ng/mL. Destes, cerca de 4% tinham hiperparatireoidismo secundário. Os valores de referência estimados para o 25(OH)D por ECLIA, e atualmente utilizados em nossos laudos, foram semelhantes aos descritos em outros estudos.

MODELO DE RESULTADO

Vitamina D3 - 25(OH)D

Resultado:

Método: Eletroquimioluminescência

Valores de referência:

desejável: 30-60ng/mL
limítrofe: 20-30ng/mL
deficiência leve: 10-19ng/mL
deficiência severa: < 10ng/mL

Podem ocorrer variações relacionadas a gênero, idade, estação do ano, latitude geográfica e grupos étnicos.

LEITURAS SUGERIDAS

1) Holick MF.Vitamin D status: Measurement, interpretation and clinical application. Ann Epidemiol 2009,19:73-78

2) Cavalier E., Delanaye P., Chapelle JP., Souberbielle Jc. Vitamin D: current status and perspectives. Clin Chem Lab Med. 2009, 47(2): 120-127.

3) Premaor MO., Paludo P., Manica D., Rossatto ER. et all. Hypovitaminosis D and secondary hyperparathyroidism in resident physicians of a general hospital in southern Brazil. J Endocrinol Invest. 2008, 31(11):991-995.

Autor Beatriz Von Poser
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